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Cuidar de quem cuida: autocuidado, saúde mental e a missão do agente da Pastoral da Saúde

  • Foto do escritor: Pastoral da Saúde AOR
    Pastoral da Saúde AOR
  • 15 de ago.
  • 7 min de leitura


Durante a manhã de formação, o Padre Gilberto Moura, coordenador regional da Pastoral da Saúde, conduziu uma reflexão que toca diretamente o coração daqueles que assumem a missão de cuidar. A partir do tema “Autocuidado e Casa Comum: Saúde Mental Garantida”, sua palestra trouxe uma provocação fundamental para todos os agentes da Pastoral da Saúde: quem cuida de quem cuida?

A pergunta parece simples, mas carrega uma profunda dimensão pastoral. Estamos acostumados a visitar enfermos, acompanhar famílias, ouvir sofrimentos, levar uma palavra de esperança, rezar com aqueles que enfrentam a doença e estar presentes nos momentos de fragilidade. Muitas vezes, porém, nessa dedicação ao outro, podemos esquecer uma pessoa que também necessita de cuidado: nós mesmos.

O Padre Gilberto chamou a atenção justamente para essa realidade. Cuidar de si não significa abandonar o outro. Pelo contrário: cuidar de si é também uma forma de cuidar do outro. Quando reconhecemos nossos limites, nossas emoções, nossas necessidades e nossa própria fragilidade, conseguimos oferecer um cuidado mais humano, equilibrado e verdadeiro.


A Casa Comum começa também em nós


Um dos primeiros pontos apresentados foi a compreensão da Casa Comum. A Terra é o nosso lar comum, um espaço no qual todos dependemos uns dos outros e do meio ambiente para sobreviver e prosperar. Não estamos isolados: seres humanos, natureza e todas as formas de vida compartilham recursos e relações de interdependência.

Cuidar da Casa Comum, portanto, não pode ser reduzido apenas à preservação ambiental. É necessário compreender o cuidado de maneira integral, envolvendo as dimensões ambiental, social, econômica e espiritual. O cuidado com a vida precisa considerar a pessoa em sua totalidade.

Essa visão amplia a própria compreensão da missão da Pastoral da Saúde. O agente não está diante apenas de uma doença ou de um problema físico. Está diante de uma pessoa que possui história, sentimentos, relações, sonhos, medos, necessidades materiais e uma dimensão espiritual.

É o cuidado biopsicossocial e espiritual, um cuidado integral.

E essa perspectiva nos leva a uma conclusão importante: a Casa Comum também precisa ser cuidada dentro de nós. Nosso corpo, nossa mente, nossos relacionamentos e nossa espiritualidade também são espaços que precisam de atenção.


Autocuidado não é egoísmo


Talvez uma das mensagens mais fortes da palestra tenha sido a necessidade de desconstruir uma ideia muito presente entre aqueles que trabalham voluntariamente: a de que cuidar de si seria uma atitude egoísta.

Não é.

O autocuidado significa reconhecer que também somos pessoas que precisam de descanso, escuta, afeto, apoio, espiritualidade e limites.

O material apresentado pelo Padre Gilberto afirma de maneira direta: “Cuidar de si mesmo é cuidar do outro.”

Quando estamos emocionalmente esgotados, sobrecarregados ou vivendo conflitos que não conseguimos elaborar, isso inevitavelmente repercute na maneira como nos relacionamos com aqueles que encontramos na missão.

Por isso, cuidar de si é também assumir responsabilidade pela forma como chegamos ao encontro do outro.

O agente da Pastoral da Saúde não precisa ser alguém que nunca se cansa, nunca sofre, nunca fica triste ou nunca se sente desanimado. Essa pessoa simplesmente não existe.

Somos humanos.

Também choramos. Também temos preocupações. Também enfrentamos perdas. Também experimentamos frustrações. Também precisamos dizer “não” algumas vezes. Também precisamos reconhecer quando chegou o momento de pedir ajuda.

O verdadeiro cuidado começa quando deixamos de exigir de nós mesmos uma perfeição que não é humana.


Saúde mental é mais do que ausência de doença


Outro aspecto fundamental abordado na palestra foi a compreensão da saúde mental.

A saúde não pode ser entendida apenas como ausência de doença. A concepção apresentada relaciona saúde ao bem-estar físico, mental, social e espiritual.

Da mesma forma, ter saúde mental não significa viver permanentemente feliz ou nunca enfrentar problemas.

Todos nós atravessamos momentos agradáveis e desagradáveis, períodos de cansaço, perdas, conflitos, alegrias e conquistas. O que faz diferença é a maneira como reagimos a essas situações e nossa capacidade de lidar com elas de forma equilibrada.

Essa reflexão é especialmente importante para os agentes da Pastoral da Saúde.

Quem acompanha pessoas enfermas convive diariamente com histórias de sofrimento. O agente escuta familiares aflitos, encontra pessoas diante da dor, da solidão, do medo e, algumas vezes, da morte. É natural que tudo isso produza algum impacto.

A dor do outro também nos afeta.

A apresentação chama atenção para o fato de que a saúde mental dos agentes das pastorais sociais pode ser afetada pelo estresse, pela sobrecarga de responsabilidades e pela falta de apoio.

Por isso, não podemos romantizar o sofrimento do agente pastoral.

Não é porque fazemos um trabalho voluntário que estamos protegidos contra o cansaço emocional. Não é porque temos fé que deixamos de experimentar angústias. Não é porque rezamos que não precisamos conversar, descansar ou, quando necessário, procurar ajuda profissional.


Quando a missão pesa


O Padre Gilberto também apresentou alguns fatores que podem contribuir para o estresse dos agentes pastorais: carga emocional, conflitos e críticas, pressão financeira, desequilíbrio entre a vida pessoal e o ministério e falta de apoio, entre outros.

Essa reflexão merece ser levada para dentro das nossas comunidades.

Quantas vezes um agente assume diversas responsabilidades porque “ninguém mais quer fazer”?

Quantas vezes continua trabalhando mesmo estando cansado?

Quantas vezes deixa de falar que está sofrendo para não preocupar os outros?

Quantas vezes acredita que precisa resolver tudo sozinho?

É preciso romper com essa lógica.

A Pastoral da Saúde precisa ser também uma rede de cuidado entre os próprios agentes.

Precisamos criar espaços onde seja possível falar sobre aquilo que fazemos, partilhar as dificuldades, celebrar as conquistas e reconhecer os limites. A missão não pode ser construída apenas sobre o esforço individual; ela precisa ser sustentada pela comunidade.

Entre as estratégias apresentadas para o cuidado com a saúde mental dos agentes estão justamente a criação de espaços de escuta e discussão sobre o trabalho voluntário, a partilha da missão e a promoção de estratégias de cuidado mútuo e solidariedade.


Qualidade de vida também é missão


A palestra avançou ainda para outro conceito fundamental: qualidade de vida.

Qualidade de vida não significa simplesmente possuir conforto material. Ela envolve diferentes dimensões da existência humana: saúde física e mental, relações sociais, bem-estar psicológico, realização pessoal e ambiente em que vivemos.

Para viver bem, precisamos dormir adequadamente, movimentar o corpo, alimentar-nos de maneira saudável, cultivar relações positivas, possuir uma rede de apoio e encontrar sentido naquilo que fazemos.

Precisamos também desenvolver autoconhecimento, autoconfiança e autonomia.

Precisamos saber quais são nossos limites.

Precisamos reconhecer nossos talentos.

Precisamos estabelecer objetivos e perceber que nossa vida possui sentido.

Tudo isso também diz respeito ao agente da Pastoral da Saúde.

A qualidade de vida do agente pastoral envolve a maneira como ele cuida do próprio corpo, da saúde mental e emocional, dos relacionamentos, dos estudos e da espiritualidade.

E isso não é algo secundário.

É parte da própria missão.

Um agente que não cuida de si pode encontrar dificuldades para lidar com as exigências da pastoral, com as pessoas que acompanha e até mesmo com suas próprias emoções e limitações.

Por outro lado, quando o agente está bem cuidado, tende a possuir mais energia, motivação e criatividade para realizar seu trabalho pastoral.


A espiritualidade que sustenta o cuidado


Para uma pastoral que nasce da fé cristã, falar de saúde mental e autocuidado sem falar de espiritualidade seria deixar de lado uma dimensão essencial.

O Padre Gilberto destacou a espiritualidade como componente fundamental da qualidade de vida do agente pastoral. A fé, a oração e o contato com Deus podem oferecer sentido, paz e força para enfrentar as dificuldades e continuar a missão com alegria.

Mas talvez seja importante compreender que espiritualidade não deve ser utilizada para esconder ou negar o sofrimento.

A fé não nos torna indiferentes à dor. Ela nos ajuda a atravessá-la.

Jesus não ensinou seus discípulos a serem pessoas incapazes de sofrer. Ensinou-os a permanecerem próximos, a cuidar, a compadecer-se e a caminhar juntos.

É nessa perspectiva que a espiritualidade pode tornar-se uma verdadeira fonte de saúde: quando nos ajuda a encontrar sentido, esperança e força, mas também quando nos permite reconhecer humildemente que precisamos dos outros.


Quem cuida de si cuida melhor do outro


No final, a palestra nos conduz novamente ao centro da missão.

A qualidade de vida do agente pastoral não interessa apenas ao próprio agente. Ela interfere diretamente na qualidade do cuidado que ele oferece.

Uma pessoa que cuida de si consegue desenvolver mais empatia, compreensão e disponibilidade para aqueles que acompanha.

É uma grande responsabilidade compreender isso.

O agente da Pastoral da Saúde não é apenas aquele que leva uma mensagem ao enfermo. Ele próprio é parte da mensagem.

Quando chega com serenidade, escuta com atenção, respeita os limites, acolhe sem julgar e demonstra disponibilidade verdadeira, ele anuncia, através de seus gestos, uma Igreja que cuida.

Por isso, talvez a grande pergunta que fica depois da palestra do Padre Gilberto não seja apenas “como podemos cuidar melhor dos enfermos?”

É preciso perguntar também:

“Como estamos cuidando daqueles que cuidam?”

E, mais profundamente:

“Como estou cuidando de mim?”

Essa pergunta não deve produzir culpa. Deve produzir consciência.

Cuidar de si não é afastar-se da missão. É fortalecê-la.

Descansar não é desistir.

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

Reconhecer limites não é falta de fé.

Cuidar da saúde mental não é abandonar a espiritualidade.

Pelo contrário: tudo isso pode fazer parte de uma espiritualidade madura, de uma pastoral mais humana e de uma Igreja que compreende que toda vida precisa ser cuidada.

A reflexão apresentada pelo Padre Gilberto nos lembra que o mar é formado por muitas gotas. Cada agente pode sentir, em alguns momentos, que aquilo que faz é pequeno diante da imensidão das necessidades humanas. Mas cada gesto de cuidado possui valor.

Como recorda a frase apresentada ao final da palestra, atribuída a Madre Teresa de Calcutá: “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”

Que essa seja também uma mensagem para todos os agentes da Pastoral da Saúde: você é importante para a missão, mas você também é importante para Deus, para sua comunidade e para aqueles que caminham ao seu lado.

Antes de sair para cuidar de alguém, lembre-se de olhar também para dentro de si.

Porque quem aprende a cuidar de si não diminui o cuidado com o outro. Torna-se capaz de cuidar melhor.

E talvez seja justamente aí que começa uma Pastoral da Saúde verdadeiramente integral: cuidando do enfermo, cuidando da comunidade, cuidando da Casa Comum e, também, cuidando de quem cuida.


Coordenação da Pastoral da Saúde

 
 
 

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